Neste ano, no próximo dia 27, o incêndio na boate Kiss completa sete anos. Uma tragédia que matou 242 jovens, além de ferir mais 680. O acidente foi considerado a segunda maior tragédia no Brasil em número de vítimas em um incêndio, sendo superado apenas pela tragédia do Gran Circus Norte-Americano, ocorrida em 1961, em Niterói, que vitimou 503 pessoas. Também foi classificada como a quinta maior tragédia da história do Brasil, a maior do Rio grande do Sul, de maior número de mortos nos últimos cinquenta anos no Brasil, além do terceiro maior desastre em casas noturnas no mundo.
Existem feridas internas e cicatrizes que talvez nem o tempo seja capaz de sanar. O mês de janeiro tem a cor branca e pretende disseminar informações sobre a importância dos cuidados com a saúde mental. Através de vídeos, seis sobreviventes da tragédia: Cristina Peiter (30 anos), Angélica Sampaio (27 anos), Gustavo Cadore (38 anos), Juciane Bonella (28 anos), Delvani Rosso (27 anos) e Kelen (26 anos), relatam temas referentes a Saúde Mental e como a tragédia está sendo enfrentada ao longo desses 7 anos.
Abaixo confira alguns dos depoimentos. Mais informações podem ser obtidas na página do facebook – “Kiss: que isso não se repita”.
Delvani Rosso, natural de Rosário do Sul – RS, tinha 20 anos em 27 de Janeiro de 2013. Acompanhado de seu irmão, Jovani Rosso, foi até a Kiss com mais cinco amigos: Henrique, Cássio, Renan, Jacob e Charles. “Estávamos na área vip, do outro lado do palco, não dava pra ver nada. Só nos damos por conta do incêndio quando todo mundo virou para a saída e foram lentamente caminhando. Eu lembro que entrelacei meus braços com o Cássio e o Henrique para sairmos juntos, mas no meio do caminho nos perdemos e não vi mais eles. Como não conseguia enxergar muito, tracei uma linha imaginária até a porta de saída e fui: empurrando e sendo empurrado, não tinha como fugir disso. Acabei perdendo as forças e desmaiei perto da porta, acordei na calçada em estado de choque, gritando automaticamente sem querer gritar, pedindo socorro. As pessoas me olhavam com expressão de horror e eu estava lá, sem entender nada, sentindo uma dor que não sei explicar. Fui socorrido e, ao ser levado ao hospital, desmaiava e acordava até chegar.”
Delvani, que teve 50% do corpo queimado, foi levado para Porto Alegre – RS para intervenções cirúrgicas. Os amigos os quais entrelaçou seus braços acabaram morrendo na Boate: Henrique, Cássio e Jacob. Atualmente, o sobrevivente é auxiliar administrativo e reside em Santa Maria – RS.
O que mais ajudou Delvani a enfrentar o pós-tragédia foi sua família, seus amigos e sua fé. Com o estudo do autoconhecimento, ele acabou adquirindo mais clareza sobre determinadas situações, transformando o ocorrido em algo que o fortalecesse. Delvani sempre se projetou no futuro: mesmo nos piores momentos ele tinha a esperança de que tudo iria passar, levando em consideração que a vida é feita de ciclos. O elo realizado entre o estudo e a ajuda vinda das pessoas que o rodeavam, fez com que seu físico e seu psicológico fossem equilibrados.
Juciane Bonella, natural de São Marcos – RS, tinha 21 anos na data do incêndio na Kiss e cursava Medicina Veterinária na Universidade Federal de Santa Maria. Foi para a festa com suas quatro melhores amigas: Thaís, Isabella, Andressa e Maria Mariana. “Um pouco antes do incêndio começar, eu havia ido ao banheiro sozinha. Eu só lembro de ouvir gritos. Quando eu saí do banheiro, não dava pra ver nada, tinha muita fumaça, era muito calor e eu logo desmaiei. Acordei uma semana depois, no Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre”. Juciane foi a única das cinco amigas que saiu viva de dentro da Boate Kiss. Após a tragédia, sofreu mais de vinte intervenções cirúrgicas: 25% do seu corpo estava queimado, entre braços, mãos, pescoço e rosto.
Juciane não tem expectativa quanto ao julgamento dos réus do caso: “Eu fico muito mal em ouvir ou pensar no assunto. Nada vai trazer minhas amigas e nossa vida de volta. É isso que sempre pensei”. Atualmente, Juci trabalha como Médica Veterinária e segue residindo em Santa Maria – RS.
O que ajudou e ainda segue ajudando Juci no enfrentamento do trauma, foi sempre falar do que ela viveu e sentiu no dia 27 de Janeiro e nos dias posteriores da tragédia. Seguir falando das suas melhores amigas que faleceram e imaginar o que estariam fazendo nos dias atuais, acabou auxiliando-a passar por diferentes etapas da vida, inclusive o término de sua graduação. Ela transformou a dor em luta e ressalta que o trauma é algo que nunca deve ser escondido: é fundamental falar, pois é como uma ferida, tem que ser bem cuidada para que possa ser cicatrizada. Conversar é uma maneira de compartilharmos nossos sentimentos, ajudando nossa saúde mental a manter seu grau de equilíbrio.
Angélica Sampaio, natural de Santiago – RS, tinha 21 anos no dia do incêndio na Boate Kiss. Na casa noturna, estava junto do seu namorado e mais seis amigos: “Eu e as meninas estávamos no banheiro na hora que o fogo começou. Nossos amigos meninos felizmente conseguiram sair sem ferimentos. Uma das gurias conseguiu sair a tempo, mas eu e uma outra amiga fomos retiradas desmaiadas de dentro da boate”.
Angélica era vendedora em uma Loja de Santa Maria – RS e atualmente é graduada em Design de Moda. Após o trauma, ficou em licença médica durante aproximadamente um ano e meio para realização de tratamentos. “Nada do que nós sobreviventes, familiares e amigos das pessoas que passaram por isso ou que morreram na tragédia, fizermos irão recuperar suas perdas e o que viveram nesses sete anos. Mas espero que os responsáveis sejam julgados e condenados de acordo. Não há somente um culpado e sim uma sequência de erros”.
O fato de ter sido criada em família evangélica, fez com que Angélica sempre tivesse muita fé. Ainda assim, os laços com sua família e amigos deram apoio para que ela pudesse enfrentar o trauma sofrido na Boate Kiss. O equilíbrio da saúde mental não requer apenas a importante ajuda psicológica ou médica: nosso círculo de pessoas de convivência também nos ajuda a enfrentar as batalhas diárias.
Imagens: Espaço Art Foto e Vídeo / fotógrafo Derli Soares Junior
Idealização: Kelen Ferreira | Planejamento e execução de campanha: André Polga, Bel Bonotto e Natália Venturini
E você, como está a sua saúde mental?
