Aos 32 anos e sem histórico de comorbidades, Juliana Zanella Pimentel não imaginava que a contaminação pelo coronavírus pudesse atingi-la tão agressivamente. “Na metade do mês de maio começaram os sintomas, como se fosse uma gripe, mas dentro de três dias eu comecei a sentir falta de ar e fui internada. Em seguida já estava na UTI e, um dia depois, eu fui entubada”, conta.
Sintomas como perda do olfato e paladar também fizeram parte do diagnóstico, mas após resistir a 14 dias em estado grave, uma sequela incomum começou a aparecer: a queda de cabelo. “As funções todas voltaram normais, não fiquei com nenhuma sequela neurológica, até por todo o processo que eu passei na UTI, por toda a medicação, toda droga que foi utilizada, só uma única coisa foi que eu perdi 70% do meu cabelo”, diz.
A partir da constatação, Juliana decidiu que doaria o longo cabelo escuro à oncologia do Hospital de Clínicas, em Passo Fundo – onde ficou internada – e daria lugar ao cabelo curto e descolorido. “Lidar com isso pra mim precisou daquele período de adaptação, de aceitação, você se olha no espelho e se reconhece de uma forma e de repente você não é mais daquele jeito, então tem que ter esse processo de aceitação das fases também”, relata.
“Mas foi um momento de desapego, o pior foi vencer a doença, eu estou bem, com todas as minhas funções após um trauma grande, então isso me ajudou a evoluir para melhor”.
Juliana teve alta em 9 de junho, como se fosse um presente de aniversário: no dia seguinte, ela comemorou seus 33 anos.
“Tive que aprender a andar e comer de novo”
O período na UTI foi longo e exigiu o uso de bloqueadores neuromusculares para a sedação, o que resultou na perda de funções básicas. “Eu tive que aprender a andar de novo, tive que aprender a comer de novo. Eu me extubei e isso machucou minha garganta, precisei fazer exercícios pra fala também, porque eu fiquei mais de 15 dias sem voz, com a voz bem baixinha. Precisei fazer muita fisioterapia e perdi 12kg no processo”, relembra.
Hoje, cerca de quatro meses após o diagnóstico, Juliana celebra o fato de ter sobrevivido à experiência. “Hoje eu consigo treinar, trabalhar e claro, tem dias que estou mais cansada, então também eu preciso me respeitar, respeitar o corpo. Eu paro e descanso”. Aos poucos, o pulmão também volta ao normal. “Foi um trauma bem grande chegar ao quase óbito, mas ao mesmo tempo uma experiência muito gratificante de vida”, afirma.
A incerteza do retorno
“Quando você está lá e vai ser entubado, você não sabe se você vai voltar. E eu não tinha medo de morrer, mas eu tinha uma tristeza muito grande de não ter falado pras pessoas o quanto eu amava elas”, conta Juliana, emocionada.
Ela relembra do momento pouco antes de ser sedada, quando fez um pedido comovente: “Eu só disse para a médica que se eu não retornasse, era para falar para minha mãe que eu amo ela”, recorda. “É uma doença muito rápida, eu me vi internada sem poder falar, sem poder avisar, então o importante é aproveitar os momentos que a gente tem e dizer às pessoas o quanto a gente as ama”, finaliza.
Fonte: Diário da Manhã
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